A <i>gaffe</i>

Anabela Fino
De tudo o que já se escreveu e disse sobre o congresso do PS nada me surpreendeu tanto como o facto de – aparentemente – a maioria dos comentadores ter passado ao lado da imensa, enorme, monumental mesmo, gaffe cometida, inadvertidamente sem dúvida, pelos organizadores do evento ou por maléfico vírus. Refiro-me à palavra de ordem «Vencer 2009», que viria a ser transmutada em «Sócrates 2009» na infindável sucessão de tributos ao líder a que foi dado assistir ao longo do fim-de-semana. Sócrates 2009? Sócrates-dois-mil-e-nove? SÓCRATES-DOIS-MIL-E-NOVE? Mas seria um absurdo, uma desgraça, uma calamidade, até porque já vamos em Março e só faltam dez-meses-dez para o final do ano. E depois? Sim, e depois? O que seria de nós, do povo, do País com o apagão Sócrates? O que seria da Europa e da civilização cristã e Ocidental?
O resultado só poderia ser a idade das trevas, um tsunami planetário, o caos dentro do caos, o fim do mundo. Sinto calafrios só de pensar no assunto. E pasmo, pasmo de queixo caído, que ninguém se tenha apercebido da lamentável troca dos números, pois o que obviamente se quis dizer no congresso do PS foi «Sócrates 9002», que é assim como garantir que o Sol continuará a nascer para todo o sempre.
E não me venham dizer que o homem é indispensável mas não é eterno, pois nada segura a imaginação humana em caso de necessidade extrema – como é o caso – e não duvido nem por um átomo de segundo, passe a expressão, de que por esta altura já há por aí um secretíssimo abrigo subterrâneo repleto de arcas frigoríficas com células estaminais e outras coisas que tais (perdoe-se a falta de rigor científico, mas a aflição é grande e a mensagem urgente), passíveis de garantir no momento oportuno um clone Sócrates para todas as ocasiões. Quem viver verá o menino Pinto de Sousa de calções, de bibe de escola, trilhando os independentes caminhos da universidade, projectando assinaturas, ambientando o olhar nos caminhos do futuro, dando à tíbia e ao perónio para ascender aos mais altos cargos da política.
É bom saber que há coisas que nunca mudam, particularmente quando se sabe de ciência certa que o tempo é feito de mudanças. Ora foi isso que o congresso do PS nos veio garantir, lá da second life onde se instalou e só por acidente calhou ser num pavilhão de Espinho. Um mundo assim, como nos pintaram, todo virtual, não tem limites. Problemas só existem os que se inventam, e não custa nada resolvê-los com um «delete» no computador. Memórias de vidas passadas são as que se quiserem, e uma limpeza ao disco deixa tudo como novo. Os bons de hoje são os maus de amanhã e vice-versa, sem remorsos e sem traumas. Só há que estar atento aos terríveis vírus que dão pelo nome de comunistas e que tendem a estragar a festa com aquela mania abstrusa de ter os pés bem assentes na terra. São os invejosos que não têm «magalhães» para aceder às maravilhas da second life onde não há fome, nem desemprego, nem capitalismo, nem exploração, nem guerras, e persistem em dizer que a história não acabou. Uns chatos tão chatos que nem no mundo virtual se consegue liquidá-los.


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